Noite
calma de outono. Céu limpo e estrelado.Uma menina caminhava
rapidamente pelas ruas paralelepípedos, de braços dados
com seu pai e agarrada a um guarda-chuva. Usava um vestido branco
com mangas bufantes e muitos saiotes para aumentar o volume de seu
vestido, tentando esconder um corpo muito magro. Não olhavam pra
ninguém.Viviam num mundo fechado, só deles. Iam ao cinema, como faziam
todas as
semanas.
Este
era o
programa
preferido
dos dois...Seu nome? Orides Fontela.
ODE II
O amor, imor
talidade do instante
totalização da forma
em ato vivo: obscura
força refazendo o ser.
O amor, momen
to do ser refletido
eternamente pelo
espírito.
1940. Orides Fontela nasce em São João da Boa Vista
24
de abril de 1940. Numa pequena cidade,"com montanhas arcaicas,
ventre de um sol perfeito de uma infinita Lua", chamada São
João da Boa Vista, exatamente às 23 horas, ali na Rua
Oscar Janson, nº 18, nasce Orides de Lourdes Teixeira Fontela.
Filha de Álvaro Fontela, “plainador”, carpinteiro,
como disse Orides em um documento escolar e Laurinda Teixeira Fontela,
dona de casa. Orides nasceu no seio de uma família modesta,
sem recursos financeiros, porém, pessoas honradas e trabalhadoras.
Amavam a única filha. Tiveram outra, que morreu ao nascer, a
quem Orides dedicou o “Soneto à minha irmã”.
Seu pai Álvaro, descendente de espanhóis vindo da Galícia,
era analfabeto, mas muito criativo; sua mãe Laurinda, que descendia
de portugueses, era alfabetizada e ensinou as primeiras letras a Orides.
Um tio, irmão de sua mãe, era dono de uma papelaria e
de certa forma tornou-se o protetor da família.
SONETO À MINHA IRMÃ
(nascida morta)
No opaco silêncio
estátuas virgens
De sal e luz trombaram, desmembradas,
No abismo das lúcidas origens
Dormem nomes e formas olvidadas.
Dormem –não
se levantam –primitivas
Idéias puras no limbo fenecidas
Pulcras estátuas virgens, mas cativas,
À luz total do ser não prometidas.
Na memória
elas pesam como puro
Tormento, arremessadas neste escuro
Poço das coisas frustradas, não nascidas:
Assim vives em
mim, irmã, singela
Pulsas em mim como a visão mais bela
Entre rosas sepultas e queridas
Ginásio São João. Onde Orides estudou
"Entrei
no dito Ginásio (e foi muita sorte), fiz meus primeiros sonetos,
aprendi métrica com meu saudoso professor Francisco Pascoal e
com Gonçalves Dias (A tempestade). Li, naquela época, Manuel
Bandeira e Alphonsus Guimaraens, (todos os menores etc). Bem ou mal,
adquiri a aura de poeta municipal e para o gosto local eu era ótima.
Desde os 16 anos tive poemas publicados nos jornais da cidade (principalmente,
ou exclusivamente, O Município). Tudo muito local, dia da árvore,
das mães, natal. Se ficasse nisso, nisso estaria até hoje,
e tudo bem. Como mudei, e atingi, senão a grande literatura, pelo
menos algo de nível, digamos, estadual, algo que os paulistanos
aceitassem? Esse é o primeiro problema real, e é meio misterioso
até para mim..." (Orides Fontela)
ODE III
Pouco é viver
mas pesa
como todo o ser
como toda a luz
como a concentração
do tempo.
Aos 7 anos de idade Orides
entrou para o Grupo Escolar Joaquim José, tradicional casa de
ensino da cidade. Depois, cursou o Ginásio São João
e o curso secundário, entrou para o Instituto de Educação
Cel. Cristiano Osório de Oliveira, onde em seguida formou professora
pela Escola Normal. Foi a primeira da classe e por este motivo, recebeu
uma cadeira-prêmio de acordo com a legislação da época.
Especializou-se em pré-primário, mas não tinha
nenhuma paciência no trato com seus alunos. Quando cansava, convidava
os alunos a brincar de roda. Gostava de cantar canções
infantis e assim, ia até o final do expediente. Tinha voz muito
aguda e por algum tempo, fez aula de canto lírico no Conservatório
Guiomar Novaes, da professora Mirian Pipano em São João
da Boa Vista.
COROS
Coros
pungentes
cores
do crepúsculo
ser perdido em
vozesfragmentos
arestas
violação
de um só silêncio
lúcido.
Grupo Escolar Cel. Joaquim José,
frequentado por Orides na década de 40
"A
conheci ainda menina em São João da Boa Vista. Ela foi
minha companheira de período no Grupo Escolar "Coronel Joaquim
José". Era uma menina um pouco peculiar, como foi a vida
inteira, pois não sabia controlar os risos e as lágrimas.
Os anos foram passando... Algumas vezes eu a via no consultório
médico de meu pai. Orides ia com o pai, com quem se dava
muitíssimo bem. Eu também o conheci. Era um marceneiro,
homem bom, simples, modesto e pobre, com uma inteligência viva,
arguta, perguntadora e também muito engraçado e, neste
sentido, ela era bastante parecida com ele. Às vezes eu a via
no cinema acompanhada do pai. Gostava de fazer comentários altos,
sem se incomodar se atrapalhava as pessoas. Ela não tinha muito
a medida do outro." (David Arrigucci Jr)
INICIAÇÃO
Se vens a uma terra estranha
curva-te
se este lugar é esquisito
curva-te
se o dia todo é estranheza
submete-te
- és infinitamente mais
estranho.
Theatro Municipal que foi transformado
em cinema na época de Orides. Costumava frequentá-lo
com seu pai
"Quem
me ajudou na época, foi minha prima Ana Maria Salomão.
Além da prima, foi o senhor Oliveira Neto (que me emprestava os
livros da melhor biblioteca de São João da Boa Vista, creio),
a Sociedade de Cultura Artística, da qual eu era sócia
e recitava nas festas. E havia a Senhora Madalena de Oliveira Azevedo,
que me emprestava o Suplemento Literário do Estado de São
Paulo. Eu não tinha um tostão, nem mesmo para jornal! Pô,
como "paideia", isso era para lá de irrisório.
Mas havia a louvável "hybris" da juventude,
que faz com que " impunemente" nos consideremos gênios
ou seja lá o que for isso. E havia a escrita selvagem, sem críticas
nem peias, andando sozinha eu lá sabia para onde."(Orides
Fontela)
Orides e suas leitoras sanjoanenses
"A
primeira influência literária? Foi meu pai, analfabeto e
tudo. Só que, a cada noite, me contava um "caso",
uma história de fadas. O enredo desses contos era basicamente
o mesmo, mas as peripécias eram sempre recriadas. Lembro de um
em que o herói, saindo dos tempos atuais, chegava a um reino mítico
e... instalava a eletricidade! Tudo incrível. Parecia que meu
pai ainda habitava a Idade Média e sonhava inventar o moto-contínuo.
Por tal lógica, eu deveria estar procurando a quadratura do círculo:
só que estou procurando a "circulação
do quadrado".
Mas não sou muito diferente de meu pai... Minha mãe? Bem,
ela me alfabetizou, na marra - bê-a-bá e puxão
de orelha. E, na cartilha, achei os primeiros poemas escritos, um tal
de "já no horizonte" e o hino nacional. Também
devo mencionar, como pré-história, a Rádio Nacional
e os poemas caipiras? Bem, como pré-história, chega: foi
a Idade da Pedra, mesmo!" (Orides Fontela)
David Arrigucci Jr. "descobre" os poemas de Orides.
"De
vez em quando eu lia seus poemas nos jornais de São João
da Boa Vista, mais no Município do que na Cidade de São
João. Eram sonetões parnasianos de gosto médio,
assim mais ou menos isto que ficou convencional nas cidades do interior:
um gosto que parou na poesia do fim do século. Na década
de sessenta, li no Município um poema extraordinário chamado "Elegia
I". (David Arrigucci Jr)
Elegia
Mas para que
serve o pássaro?
Nós o contemplamos inerte.
Nós o tocamos no mágico fulgor das penas.
De que serve o pássaro se
desnaturado o possuímos?
O que era vôo e eis
que é concreção letal e cor
paralisada, íris silente, nítido,
o que era infinito e eis
que é peso e forma, verbo fixado, lúdico
o que era pássaro e é
o objeto: jogo
De uma inocência que
o contempla e revive
- criança que tateia
no pássaro um esquema
de distâncias -
mas para que serve o pássaro?
O pássaro não serve; arrítmicas
brandas asas repousam.
"É um poema belíssimo! Orides dera um salto
inesperado. Como eu a tinha perdido de vista há muito tempo, resolvi
procurá-la. Conversamos um pouco sobre este poema e perguntei-lhe
se ela tinha outros poemas. No dia seguinte, ela apareceu com um fichário
de capa preta, com um volume grande de poemas. Fiquei com a coletânea,
li e assinalei um pouco os poemas. Disse-lhe, em conversa, que havia
matéria, e muito boa, para mais de um livro. Se ela permitisse,
tentaria publicá-los no Suplemento Literário do Estado
de São Paulo , no qual eu estava começando a escrever.
Escolhi três poemas de Orides, entre eles o "Elegia" e
mostrei-os aos professores Décio de Almeida Prado e José Aderaldo
Castello. Ambos ficaram muito impressionados com o texto que leram. O
Décio imediatamente publicou os três poemas com ilustrações
da Rita Rosemayer. Isto deve estar nos arquivos do Estadão." (David
Arrigucci Jr)
Com José Marcondes, seu amigo de colégio
"Não
tenho rotina para escrever. Pertenço à família dos
poetas inspirados, embora eu seja anti-romântica e isso esteja
também fora de moda, mas não é culpa minha. No fundo,
talvez eu seja romântica. É tudo espontâneo, eu vou
anotando em cadernos, em livros de outras pessoas, em pontas de papel.
Depois, deixo descansar por longo tempo." (Orides Fontela)
FUI EU?
eu fui
eu?
consegui?
Existir: assombro.
Fui eu! Serei?
Nem Deus
diz.
Existir: a
bismo.
Como me
atrevi
como nasci?
Com Zezé Lopes, sua professora no ginásio
Orides Fontela tinha um árduo trabalho de lapidação de suas poesias. Um esforço que a colocava na mesma trincheira daqueles que, segundo escreveu certa vez o poeta Carlos Drummond de Andrade, se lançavam à "luta vã" contra as palavras. "Orides encarava a linguagem como uma luta. Assim como o mestre dela, Drummond", garante Arrigucci. "A presença desse poeta na poesia da Orides está na própria consciência da linguagem, na própria concepção da lírica como trabalho difícil."
A ESTRELA DA TARDE
A estrela da
tarde está
madura
e sem nenhum perfume
A estrela da
tarde é
infecunda
e altíssima
Depois da estrela da tarde
so há:
o silêncio.
Autografando seu livro Teia em 1996, na Livraria Papyrus
"A
obra de Orides permanece límpida e sem arestas. Nunca foi contaminada
pela mesquinharia do quotidiano. Há um tom de amargura lírica
e seca em seus poemas. Em momento algum, ela é sentimental, derramada
ou frouxa. Sua voz poética original nasceu praticamente formada
no primeiro livro. Seu alheamento a correntes ou modismos, possibilitou
uma poesia que prima pela concisão, pela economia de recursos
e densidade. Tornou-se lugar comum falar da poesia que busca o silêncio."
(Donizete Galvão)
Fala
Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.
Com Maria Célia Marcondes na Papyrus Livraria
Certa vez, em uma entrevista concedida ao jornal paulistano Página Central, em julho de 1997 - uma de suas últimas antes de morrer -, afirmou que a situação da literatura da época era "bem ruinzinha". Disse ainda que preferia mesmo "os velhos, Drummond, Cabral e Bandeira". Os citados João Cabral de Melo Neto e Manuel Bandeira, além de Drummond, também marcaram seu trabalho. "No Manuel Bandeira ela aprendeu as palavras contadas, a precisão, a só dizer o essencial", explica Arrigucci. "O Bandeira foi o mestre absoluto da palavra essencial, e a Orides é uma poeta da palavra essencial.
MÉDIA
Meia luz.
Meia palavra.
Meia vida.
Não
basta?
Carta de Orides para Maria Célia de Campos Marcondes em 1989

Carta ao Soares Feitosa
São Paulo, 27.2.96
Sr. Soares Feitosa
Agradeço seus trabalhos, de coração. Inda não
li com cuidado para poder criticar, desculpe. Deu para perceber que o
senhor é um lírico, — até romântico — influenciado
pelo modernismo. Mas parei aí. Estou certa? Ah, o papo sobre a
Internet é interessante. Não sei nada de computador nem
me é possível ter um, mas que é um meio quente para
divulgação é. Só espero uma coisa: não
estar lá sem saber, acharia chato não ter a informação -
mas até o momento isto não me aconteceu inda, creio. Se acontecer,
me avise, tá? Sem mais um abraço.
Orides Fontela
"Outro aspecto em que Orides
se destaca é a síntese, da qual o poema "Média" constitui
um bom exemplo. Outro exemplo é o concretíssimo "Herança".
Avessa às choramingas, ela usa essa capacidade de dizer muito
em poucas palavras para construir essa "Prece" enxuta e tocante,
desesperada até, dirigida a uma potestade sem nome, a "Senhora
das feras e esferas". (Carlos Machado)
PRECE
Senhora
das feras
e esferas
Senhora
do sangue
e do abismo
Senhora
do grito
e da angústia
Senhora
noturna
e eterna
-escuta-nos!
Casa da Orides pintada por José Marcondes
HERANÇA
Da avó materna:
uma toalha (de batismo).
Do pai:
um martelo
um alicate
uma torquês
duas flautas.
Da mãe:
um pilão
um caldeirão
um lenço.
Com a poeta Dora Avanzi
"Não
havia nenhuma suavidade na leitura dos poemas feita pela própria
Orides. Ela lia seus poemas de maneira forte, vigorosa, sincopada.
Foi uma experiência reveladora vê-la numa grande cadeira
da Livraria Duas Cidades tratando sua poesia com voz incisiva e decidida.
Causava um estranhamento saber que aquela energia poética vinha
de uma mulher tão frágil e com a saúde debilitada.
Penso que ela gostaria de ser lembrada por sua produção
poética. Numa entrevista, disse que " o maior bem possível é a
poesia". (Donizete Galvão)
AXIOMA
Sempre é melhor
saber
que não saber.
Sempre é melhor
sofrer
que não sofrer
Sempre é melhor
desfazer
que tecer
Sempre é melhor
saber
que não saber.
Sempre é melhor
sofrer
que não sofrer
Sempre é melhor
desfazer
que tecer
A métrica da solidão - Revista Veja - 1995
(Mario Sabino- Revista Veja-1995)
"Quem
se der ao trabalho de observar aquela mulher de andar trôpego,
curvada feito um ponto de interrogação, não raro
num solilóquio ininteligível em que ressoam imprecações,
pode pensar, ali vai outras dessas figuras bizarras que pululam no centro
de São Paulo, movida a álcool, desespero, desesperança.
No caso de Orides Fontela, a conclusão é verdadeira apenas
em parte. Sua esquisitice esconde um dos nomes mais respeitados da poesia
brasileira contemporânea. Antônio Cândido, o papa da
crítica literária, concedeu-lhe um prefácio extremamente
elogioso ao livro Helianto, de 1973. Foi o prof. David Arrigucci que
a descobriu em São João da Boa Vista, no interior de São
Paulo. A filósofa Marilena Chauí, ex-secretária
da Cultura de São Paulo, classifica-se de brilhante. Mas, com
exceção de Marilena, que diz ter uma paciência infinita
ninguém que ver Orides pela frente. “sou muito suscetível,
briguei com todo mundo”, reconhece a poeta, que odeia ser chamada
de poetisa.. Em meio a tantas confusões, Orides ainda acha tempo
para produzir. Ela rabisca seus versos num caderno universitário,
antes de batuca-los na máquina de escrever. Suas últimas
poesias são tristes como as paredes sujas do seu apartamento,
onde ainda há traços de uma grafite feito por um americano
que veio para o Brasil fugido do serviço militar. Sua melancolia
pode ser medida pelas seguintes estrofes de ACALANTO:
Que as mãos não
trabalhem
O mundo é tristonho
Que os olhos se fechem
E não haja sonho.
1996 - Em São João da Boa Vista
(...) A dona do murro era uma moça magrinha de nome Orides Fontela, minha vizinha de São João da Boa Vista, na época uma estudante de letras com inclinações para a poesia. Orides reagia como um bicho acuado, um vulcão de sensibilidade que explodia na poesia mas não conseguia canalizar para as relações pessoais. Agredida pela vida, não sabia responder aos gestos de carinho e de atenção. Explodia do mesmo modo que quando era agredida. Do professor, cortou as roseiras. Deve ter feito pior com o David Arrigucci. Fazia escândalos com amigos, explodia com protetores, se perdia e perdia tudo o que tinha e, quando nada mais tinha, ia abrigar o corpo magro no velho prédio da Casa do Estudante. A única luz que provinha dela saía pelos poemas que rabiscava desesperadamente, até se esvair de vez em um sanatório de Campos do Jordão, anos atrás. Seu nome está consagrado nos círculos de poesia, e sua obra, dispersa. A cada dia que passa mais aumenta sua reputação. Para muitos, Orides já faz parte do Olimpo dos maiores poetas do século. Na minha memória, será sempre a moça magrinha que explodia uma agonia que não sabia explicar, uma fúria selvagem, rústica, que servia para encobrir a poeta que não se bastou. (Luis Nassif)
METAFÍSICA
Peixe
pescado
Descobre o ar
Não volta
pra contar
(...)
A obra de Orides Fontela
Em 1967 Orides Fontela teve dois poemas publicados no Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo. Seu primeiro livro de poesia, Transposição, foi lançado em 1969; seguiram-se Helianto (1973), Alba (1983), Rosácea (1986), Trevo, 1969/1988 (1988) e Teia (1996). Recebeu o prêmio Jabuti de Poesia, em 1983, pelo livro Alba, e o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, em 1996, pelo livro Teia. Sobre sua obra, de tendências contemporâneas, o crítico Antonio Candido afirmou: "Orides Fontela tem um dos dons essenciais da modernidade: dizer densamente muita coisa por meio de poucas, quase nenhumas palavras, organizadas numa sintaxe que parece fechar a comunicação, mas na verdade multiplica as suas possibilidades. Denso, breve, fulgurante, o seu verso é rico e quase inesgotável, convidando o leitor a voltar diversas vezes, a procurar novas dimensões e várias possibilidades de sentido.".
Com seus companheiros inseparáveis
"O
grande bem que nos deixou é a sua poesia. Não pretendo
aqui reforçar os traços da personalidade da Orides Fontela
e sua dificuldade em fazer e manter amizades. Orides Fontela deve ser
vista como aquela poeta capaz de dizer muito com o mínimo de palavras.
Foi um anjo torto, às avessas, sarcástico nos seus comentários,
impiedoso, inteligente e selvagem. Capaz de trazer tensão ao ambiente
e criticar em voz alta a leitura de outros poetas.(Donizete Galvão)
PAISAGEM NATAL
A teoria
azul
dos montes
longe.
II
As montanhas arcaicas, ventre
de um sol perfeito
de uma infinita
Lua
e os ventos de agosto, a
névoa
elidindo montanhas
sóis e
tudo.
III
Esta estrada ...
Névoas
Nenhum murmúrio.
Nada.
Passamos (e o sol
fenece).
Jamais haverá volta.
Na escrita de Orides, há a defesa do despojamento, de um cansaço benéfico que restará depois de tentar tudo com a literatura. "A vida é que nos tem, nada mais temos". Oito anos depois de sua morte a Editora CosacNaif reeditou sua obra num livro chamado Poesia Reunida. Assim, é possível interpretá-la de modo justo, reintegrar o prestígio ao texto e retirá-lo da personalidade folclórica, passional e complicada financeiramente, de uma artista que foi despejada e comprou briga com amigos famosos que a ajudaram no início da carreira.
2 de novembro de 1998 -Orides Fontela
morre em Campos do Jordão. Lá está sepultada.
Na lápide, trecho de um de seus poemas:
Um anjo é fogo. Consome-se
"Vê-la
morrer, assim, deu-me um gosto amargo de impotência e de falta
de disponibilidade para estar mais perto dela. Tinha comprado umas roupas
de lã, toucas, meias para levar até o hospital, como ela
havia pedido, quando recebi o telefonema sobre sua morte. No
seu modestíssimo
túmulo em Campos de Jordão, colocamos uma placa que é a
primeira estrofe de um poema de Teia: Um anjo/é fogo: /consome-se.
Na sua curta trajetória, ela conseguiu construir, como poucos
do seu tempo, uma obra extremamente original e que, sem dúvida,
permanecerá luminosa."(Donizete Galvão)
"Era primavera, quando fui internada num sanatório
público em Campos do Jordão. Estava tuberculosa. Tossia
muito, sentia fortes dores. Sabia-me depressiva, sozinha, mais abandonada
do que nunca. Aos dois de novembro de hum mil novecentos e noventa e
oito vim a falecer. Não sabiam quem eu era, a quem avisar, seria
enterrada como indigente, aliás, como sempre fui, como sempre
me senti. Uma enfermeira, ao juntar minhas poucas coisas, viu o livro "Teia"
e meu nome como autora, levou para a administração. Avisaram
meu editor, Luis Fernando Emediato, que foi até lá. Fui
enterrada no cemitério em Campos do Jordão. Juro-lhes que
tenho me comportado melhor do que em vida. Até agora nenhum vizinho
reclamou de mim. Não briguei e nem xinguei ninguém. Damo-nos
muito bem. Nossa coexistência é pacífica, como nunca
me aconteceu em vida. Vivo em paz com minha idiossincrasia, com a sensibilidade
de minha alma. A poesia continua a alimentar-me o espírito. Estou
bem."
Do Monólogo "O Tempo Pingando
dos Olhos" de Maria Célia C. Marcondes
7 de novembro de 2007. 9 anos após sua morte, Orides recebe a Comenda
da Ordem do Mérito da Cultura.
O Ministério da Cultura homenageou no dia 7/11/07,
a sanjoanense Orides Fontela com a Ordem do Mérito Cultural,
categoria Grã-Cruz.
Maria Helena Teixeira de Oliveira, prima da poetisa sanjoanense, foi
quem recebeu a congratulação das mãos do Presidente
da República, Luis Inácio Lula da Silva. A cerimônia
aconteceu no Palácio das Artes, na cidade de Belo Horizonte.
Da vida não se espera resposta
Orides Fontela
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