Poeta nascida em São João da Boa Vista, Orides Fontela deixou uma obra breve, rigorosa e incontornável na poesia brasileira.
Introdução
Orides Fontela nasceu em São João da Boa Vista e construiu uma das vozes mais rigorosas e singulares da poesia brasileira. Sua obra, breve e intensa, permanece ligada a uma escrita de precisão rara, feita de silêncio, pensamento e radicalidade formal.
Uma voz poética precisa, difícil de esquecer, nascida entre silêncio, estudo e precariedade.
Origem
Noite calma de outono. Céu límpido e estrelado. Uma menina caminhava rapidamente pelas ruas de paralelepípedos, de braços dados com seu pai e agarrada a um guarda-chuva. Usava um vestido branco com mangas bufantes e muitos saiotes para aumentar o volume de seu vestido, tentando esconder um corpo muito magro. Não olhavam pra ninguém. Viviam num mundo fechado, só deles. Iam ao cinema, como faziam todas as semanas. Este era o programa preferido dos dois. Seu nome? Orides Fontela.
Ode II o amor, imortalidade do instante totalização da forma em ato vivo: obscura força refazendo o ser. O amor, momento do ser refletido eternamente pelo espírito. 1940. Orides Fontela nasce em São João da Boa Vista SONETO À Minha Irmã (nascida morta) No opaco silêncio estátuas virgens De sal e luz trombaram, desmembradas, No abismo das lúcidas origens Dormem nomes e formas olvidadas. Dormem –não se levantam –primitivas Ideias puras no limbo fenecidas Pulcras estátuas virgens, mas cativas, À luz total do ser não prometidas.
Na memória elas pesam como puro Tormento, arremessadas neste escuro Poço das coisas frustradas, não nascidas: Assim vives em mim, irmã, singela Pulsas em mim como a visão mais bela Entre rosas sepultas e queridas Ginásio São João, onde Orides estudou " Entrei no dito Ginásio (e foi muita sorte), fiz meus primeiros sonetos, aprendi métrica com meu saudoso professor Francisco Pascoal e com Gonçalves Dias (A tempestade). Li, naquela época, Manuel Bandeira e Alphonsus Guimaraens, (todos os menores etc).
Bem ou mal, adquiri a aura de poeta municipal e para o gosto local eu era ótima. Desde os 16 anos tive poemas publicados nos jornais da cidade (principalmente, ou exclusivamente, O Município). Tudo muito local, dia da árvore, das mães, natal. Se ficasse nisso, nisso estaria até, e tudo bem. Como mudei, e atingi, senão a grande literatura, pelo menos algo de nível, digamos, estadual, algo que os paulistanos aceitassem?
Esse é o primeiro problema real, e é meio misterioso até para mim." (Orides Fontela) Ode III Pouco é viver mas pesa como todo o ser como toda a luz como a concentração do tempo COROS pungentes cores do crepúsculo ser perdido em vozesfragmentos arestas violação de um só silêncio lúcido. Grupo Escolar Cel. Joaquim José, frequentado por Orides na década de 40 " A conheci ainda menina em São João da Boa Vista. Ela foi minha companheira de período no Grupo Escolar "Coronel Joaquim José".
Era uma menina um pouco peculiar, como foi a vida inteira, pois não sabia controlar os risos e as lágrimas. Os anos foram passando. Algumas vezes eu a via no consultório médico de meu pai. Orides ia com o pai, com quem se dava muitíssimo bem. Eu também o conheci. Era um marceneiro, homem bom, simples, modesto e pobre, com uma inteligência viva, arguta, perguntadora e também muito engraçado e, neste sentido, ela era bastante parecida com ele. Às vezes eu a via no cinema acompanhada do pai.
Gostava de fazer comentários altos, sem se incomodar se atrapalhava as pessoas. Ela não tinha muito a medida do outro." (David Arrigucci Jr) Fala Tudo será difícil de dizer: a palavra real nunca é suave “Está descrita a Orides que conheci com o guarda-chuvas do pai embaixo do braço, entrando no Cine Avenida, para assistirem ao vesperal. Expressão facial esquizofrênica, entre medrosa e assustada, olhando para todos os lados, sem parar. Quem poderia adivinhar, naquele tempo, que iria traduzir esse estado de coisas através dos versos.
Era daquelas meninas que todos olhavam e diziam: "Coitadinha".
Sempre caminhando dois passos atrás do pai, meio curvada, em posição corporal que dava a crer pretendesse esconder os seios, usando óculos chamados pela garotada de "fundo de garrafa", olhares esguios e soslaientos, vestida, como se dizia na ocasião: da cabeça aos pés, calçados que podiam ser confundidos com sapatos masculinos, braços à frente da cintura com punhos fechados, cabelos amarrados, indefectivelmente, à moda Maria Chiquinha, com nada parecido com fitas de cabelos.
Era uma figura ímpar, magérrima, por vezes agressiva se questionada por pessoas de sua idade, exacerbada de indignação se lhe dirigiam gracejos alusivos ao manequim e vestimentas. Quem sabe não pudemos avaliar que ali dentro daquele corpo existia um cérebro com Q.I. avantajado, nada obstante revoltado. Orides era assim”. (por Wildes Bruscato) 24 de abril de 1940.
Numa pequena cidade, "com montanhas arcaicas, ventre de um sol perfeito de uma infinita Lua", chamada São João da Boa Vista, exatamente às 23 horas, ali na Rua Oscar Janson, nº 18, nasce Orides de Lourdes Teixeira Fontela. Filha de Álvaro Fontela, “plainador”, carpinteiro, como disse Orides em um documento escolar e Laurinda Teixeira Fontela, dona de casa. Orides nasceu no seio de uma família modesta, sem recursos financeiros, porém, pessoas honradas e trabalhadoras. Amavam a única filha.
Tiveram outra, que morreu ao nascer, a quem Orides dedicou o “Soneto à minha irmã”. Seu pai Álvaro, descendente de espanhóis vindo da Galicia, era analfabeto, mas muito criativo; sua mãe Laurinda, que descendia de portugueses, era alfabetizada e ensinou as primeiras letras a Orides. Um tio, irmão de sua mãe, era dono de uma papelaria e de certa forma tornou-se o protetor da família. Aos 7 anos de idade Orides entrou para o Grupo Escolar Joaquim José, tradicional casa de ensino da cidade.
Depois, cursou o Ginásio São João e o curso secundário, entrou para o Instituto de Educação Cel. Cristiano Osório de Oliveira, onde em seguida formou professora pela Escola Normal. Foi a primeira da classe e por este motivo, recebeu uma cadeira-prêmio de acordo com a legislação da época. Especializou-se em pré-primário, mas não tinha nenhuma paciência no trato com seus alunos. Quando cansava, convidava os alunos a brincar de roda. Gostava de cantar canções infantis e assim, ia até o final do expediente.
Tinha voz muito aguda e por algum tempo, fez aula de canto lírico no Conservatório Guiomar Novaes, com a professora Mirian Pipano, em São João da Boa Vista. CENA Um coro estranho se ergue dentre essas ruínas, Antigas sombras vagam, a cantar Glórias passadas. E sob a paz imensa das árvores anosas Mistérios sem resposta se aglomeram. Lá em cima, o céu – e aqui, vultos informes Como saudades materializadas Estáticos entoam um canto que é chorar. Um coro estranho se ergue dentre essas ruínas, Antigas sombras, estáticas, rezam.
Ou é, apenas, o vento que soluça Passando, indiferente, pelos ramos?. II Ah! Daqui Vento nenhum arrastará a noite E exporá ao Sol os mistérios, que dormem Sob a paz tutelar, das árvores anosas. 17 de outubro de 1956 Arquivo
Localiza "poema perdido" de Orides Fontela Debruçado no acervo do jornal O MUNICÍPIO, o presidente da Comissão do Arquivo Histórico, Hediene Zara, encontrou a edição de 17 de outubro de 1956. O periódico, que circulou naquela remota quarta-feira, veiculou as primeiras linhas oficialmente divulgadas por uma das maiores escritoras da história do país, no cabeçalho das colunas sociais. Trata-se do primeiro poema publicado pela escritora, no ano de 1956, quando ela contava apenas 16 anos de idade.
INICIAÇÃO Se vens a uma terra estranha curva-te se este lugar é esquisito curva-te se o dia todo é estranheza submete-te és infinitamente mais estranho. Teatro Municipal que foi transformado em cinema na época de Orides. Costumava frequentá-lo com seu pai "Quem me ajudou na época, foi minha prima Ana Maria Salomão. Além da prima, foi o senhor Oliveira Neto (que me emprestava os livros da melhor biblioteca de São João da Boa Vista, creio), a Sociedade de Cultura Artística, da qual eu era sócia e recitava nas festas.
E havia a Senhora Madalena de Oliveira Azevedo, que me emprestava o Suplemento Literário do Estado de São Paulo. Eu não tinha um tostão, nem mesmo para jornal! Pô, como "paideia", isso era para lá de irrisório. Mas havia a louvável "hybris" da juventude, que faz com que " impunemente" nos consideremos gênios ou seja lá o que for isso.
E havia a escrita selvagem, sem críticas nem peias, andando sozinha eu lá sabia para onde."(Orides Fontela) Orides e suas leitoras sanjoanenses David Arrigucci Jr. "descobre" os poemas de Orides "De vez em quando eu lia seus poemas nos jornais de São João da Boa Vista, mais no Município do que na Cidade de São João. Eram sonetões parnasianos de gosto médio, assim mais ou menos isto que ficou convencional nas cidades do interior: um gosto que parou na poesia do fim do século.
Na década de sessenta, li no Município um poema extraordinário chamado "Elegia I". (David Arrigucci Jr) Elegia Mas para que serve o pássaro? Nós o contemplamos inerte. Nós o tocamos no mágico fulgor das penas. De que serve o pássaro se desnaturado o possuímos?
O que era voo e eis que é concreção letal e cor paralisada, íris silente, nítido, o que era infinito e eis que é peso e forma, verbo fixado, lúdico o que era pássaro e é o objeto: jogo De uma inocência que o contempla e revive - criança que tateia no pássaro um esquema de distâncias - mas para que serve o pássaro? O pássaro não serve; arrítmicas brandas asas repousam. "É um poema belíssimo! Orides dera um salto inesperado. Como eu a tinha perdido de vista há muito tempo, resolvi procurá-la.
Conversamos um pouco sobre este poema e perguntei-lhe se ela tinha outros poemas. No dia seguinte, ela apareceu com um fichário de capa preta, com um volume grande de poemas. Fiquei com a coletânea, li e assinalei um pouco os poemas. Disse-lhe, em conversa, que havia matéria, e muito boa, para mais de um livro. Se ela permitisse, tentaria publicá-los no Suplemento Literário do Estado de São Paulo, no qual eu estava começando a escrever.
Escolhi três poemas de Orides, entre eles o "Elegia" e mostrei-os aos professores Décio de Almeida Prado e José Aderaldo Castello. Ambos ficaram muito impressionados com o texto que leram. O Décio imediatamente publicou os três poemas com ilustrações da Rita Rosemayer. Isto deve estar nos arquivos do Estadão." (David Arrigucci Jr) Com José Marcondes, seu amigo de colégio "Não tenho rotina para escrever. Pertenço à família dos poetas inspirados, embora eu seja anti-romântica e isso esteja também fora de moda, mas não é culpa minha.
No fundo, talvez eu seja romântica. É tudo espontâneo, eu vou anotando em cadernos, em livros de outras pessoas, em pontas de papel. Depois, deixo descansar por longo tempo." (Orides Fontela) Fui Eu? eu fui eu? consegui? Existir: assombro. Fui eu! Serei? Nem Deus diz. Existir: a bismo. Como me atrevi como nasci? Com Zezé Lopes, sua professora no ginásio A Estrela da Tarde a estrela da tarde está madura e sem nenhum perfume A estrela da tarde é infecunda e altíssima Depois da estrela da tarde só há: o silêncio.
Autografando seu livro Teia em 1996, na Livraria Papyrus "A obra de Orides permanece límpida e sem arestas. Nunca foi contaminada pela mesquinharia do quotidiano. Há um tom de amargura lírica e seca em seus poemas. Em momento algum, ela é sentimental, derramada ou frouxa. Sua voz poética original nasceu praticamente formada no primeiro livro. Seu alheamento a correntes ou modismos, possibilitou uma poesia que prima pela concisão, pela economia de recursos e densidade.
Formação
Tornou-se lugar comum falar da poesia que busca o silêncio." (Donizete Galvão) Kant relido Duas coisas admiro: a dura lei cobrindo-me e o estrelado céu dentro de mim. "A primeira influência literária? Foi meu pai, analfabeto e tudo. Só que, a cada noite, me contava um "caso", uma história de fadas. O enredo desses contos era basicamente o mesmo, mas as peripécias eram sempre recriadas. Lembro de um em que o herói, saindo dos tempos atuais, chegava a um reino mítico e. instalava a eletricidade! Tudo incrível.
Parecia que meu pai ainda habitava a Idade Média e sonhava inventar o moto-contínuo. Por tal lógica, eu deveria estar procurando a quadratura do círculo: só que estou procurando a "circulação do quadrado". Mas não sou muito diferente de meu pai. Minha mãe? Bem, ela me alfabetizou, na marra - bê-a-bá e puxão de orelha. E, na cartilha, achei os primeiros poemas escritos, um tal de "já no horizonte" e o hino nacional. Também devo mencionar, como pré-história, a Rádio Nacional e os poemas caipiras?
Bem, como pré-história, chega: foi a Idade da Pedra, mesmo!" (Orides Fontela) “Orides Fontela tinha um árduo trabalho de lapidação de suas poesias. Um esforço que a colocava na mesma trincheira daqueles que, segundo escreveu certa vez o poeta Carlos Drummond de Andrade, se lançavam à "luta vã" contra as palavras. Orides encarava a linguagem como uma luta. Assim como o mestre dela, Drummond.
A presença desse poeta na poesia da Orides está na própria consciência da linguagem, na própria concepção da lírica como trabalho difícil." (Davi Arrigucci Jr) José Marcondes, Francisco Bezerra, Orides Fontela “Estudei com a Orides no Instituto de Educação, no curso Normal, aqui, em São João da Boa Vista. A visão que a Orides tinha amigas, não corresponde a verdade. Essa é a versão das "autoridades" da escola da época. Ela foi conosco várias vezes na sessão da matiné do Teatro Municipal.
E como nós, comeu pão com mortadela lá dentro, feito pelos Pozzi. Ela não era "agressiva" da forma como relatam. Ela reagia com agressividade, quando provocada. Ela sempre andou com o guarda-chuva e nós, colegas, nunca apanhamos. Todas nós a adorávamos. Ela era um encanto de profissional, que não esperava o problema do aluno "explodir". Ela percebia quando algo não estava bem e procurava o aluno para auxiliá-lo. Todo mundo, alunos, servidores e professores, a adoravam. Mas a verdade histórica, é que ela nunca foi professora.
A Orides tinha uma letra em garranchos, mas não fazia isso para "provocar". Era o tipo de letra que ela tinha. Todas nós lembramos da Orides com ternura. Ela era amável com todas nós (mulheres). Repito, ficava agressiva, só quando provocada. Nunca tiver uma altercação sequer com a Orides. Quando ela veio autografar o livro na Papyrus, em 1996, e chegou minha vez eu disse: sou a Yvonne Palhares, sua companheira da Escola Normal. Ela levantou-se, abraçou-me e disse sorrindo: "Puxa vida, como você cresceu para os lados!".
Foi nosso último encontro.” (por Yvone Palhares) “Fiz o primário com a Orides. Acho que era a única amiga que ela possuía na escola pois não me lembro de outras. Lembro-me que brincávamos eu, ela e sua prima Marli, que depois casou com o Nogara. Lembro-me muito bem do seu pai, Sr. Álvaro que era muito engraçado. Fazíamos piqueniques, brincávamos de princesas e ela desenhava todos os personagens com vida! uma árvore, tinha membros, olhos, boca e nariz. Certa vez, o Sr. Álvaro nos levou para caçar borboletas.
Peguei muitos carrapatos, e ele me batia com um galho cheio de folhas para tirar os dito cujos. Cheguei em casa cheia de vergões e minha mãe ficou fula da vida. Mas você acha que alguém se importou? No dia seguinte fui brincar de novo. Eu achava isso uma glória, procurava imitá-la e nos dávamos muito bem. Enrolávamos panos no corpo para desfilarmos, mas já nessa época ela era diferente, mandona e muito criativa. Enjoava facilmente dos brinquedos.
Parece que ainda a ouço dizer "Cervelini!!!" Fizemos também o ginásio no mesmo período, mas aí já me afastei dela pois era um gênio e eu, já não tinha os mesmos interesses. Senti muito sua morte”. (por Neusa Cervelini Barberini)
Certa vez, em uma entrevista concedida ao jornal paulistano Página Central, em julho de 1997 - uma de suas últimas antes de morrer -, afirmou que a situação da literatura da época era "bem ruinzinha". Disse ainda que preferia mesmo "os velhos, Drummond, Cabral e Bandeira".
Os citados João Cabral de Melo Neto e Manuel Bandeira, além de Drummond, também marcaram seu trabalho. "No Manuel Bandeira ela aprendeu as palavras contadas, a precisão, a só dizer o essencial", explica Arrigucci. "O Bandeira foi o mestre absoluto da palavra essencial, e a Orides é uma poeta da palavra essencial. MÉDIA Meia luz. Meia palavra. Meia vida. Não basta? Carta de Orides para Maria Célia de Campos Marcondes em 1989 Carta ao Soares Feitosa São Paulo, 27.2.96 Sr. Soares Feitosa Agradeço seus trabalhos, de coração.
Inda não li com cuidado para poder criticar, desculpe. Deu para perceber que o senhor é um lírico, — até romântico — influenciado pelo modernismo. Mas parei aí. Estou certa? Ah, o papo sobre a Internet é interessante. Não sei nada de computador nem me é possível ter um, mas que é um meio quente para divulgação é. Só espero uma coisa: não estar lá sem saber, acharia chato não ter a informação - mas até o momento isto não me aconteceu inda, creio. Se acontecer, me avise, tá? Sem mais um abraço.
Orides Fontela "Outro aspecto em que Orides se destaca é a síntese, da qual o poema "Média" constitui um bom exemplo. Outro exemplo é o concretíssimo "Herança". Avessa às choramingas, ela usa essa capacidade de dizer muito em poucas palavras para construir essa "Prece" enxuta e tocante, desesperada até, dirigida a uma potestade sem nome, a "Senhora das feras e esferas". (Carlos Machado) PRECE Senhora das feras e esferas Senhora do sangue e do abismo Senhora do grito e da angústia Senhora noturna e eterna -escuta-nos!
Casa da Orides pintada pelo artista plástico José Marcondes HERANÇA Da avó materna: uma toalha (de batismo). Do pai: um martelo um alicate uma torquês duas flautas. Da mãe: um pilão um caldeirão um lenço. Com a poeta Dora Avanzi "Não havia nenhuma suavidade na leitura dos poemas feita pela própria Orides. Ela lia seus poemas de maneira forte, vigorosa, sincopada. Foi uma experiência reveladora vê-la numa grande cadeira da Livraria Duas Cidades tratando sua poesia com voz incisiva e decidida.
Causava um estranhamento saber que aquela energia poética vinha de uma mulher tão frágil e com a saúde debilitada. Penso que ela gostaria de ser lembrada por sua produção poética. Numa entrevista, disse que " o maior bem possível é a poesia". (Donizete Galvão) AXIOMA Sempre é melhor saber que não saber. Sempre é melhor sofrer que não sofrer Sempre é melhor desfazer que tecer Sempre é melhor saber que não saber. Sempre é melhor sofrer que não sofrer Sempre é melhor desfazer que tecer orides fontela (biografia)
A métrica da solidão - Revista Veja - 1995 (Mario Sabino- Revista Veja-1995) Que as mãos não trabalhem O mundo é tristonho Que os olhos se fechem E não haja sonho. 1996 - Em São João da Boa Vista A dona do murro era uma moça magrinha de nome Orides Fontela, minha vizinha de São João da Boa Vista, na época uma estudante de letras com inclinações para a poesia. Orides reagia como um bicho acuado, um vulcão de sensibilidade que explodia na poesia mas não conseguia canalizar para as relações pessoais.
Agredida pela vida, não sabia responder aos gestos de carinho e de atenção. Explodia do mesmo modo que quando era agredida. Do professor, cortou as roseiras. Deve ter feito pior com o David Arrigucci. Fazia escândalos com amigos, explodia com protetores, se perdia e perdia tudo o que tinha e, quando nada mais tinha, ia abrigar o corpo magro no velho prédio da Casa do Estudante. A única luz que provinha dela saía pelos poemas que rabiscava desesperadamente, até se esvair de vez em um sanatório de Campos do Jordão, anos atrás.
Seu nome está consagrado nos círculos de poesia, e sua obra, dispersa. A cada dia que passa mais aumenta sua reputação. Para muitos, Orides já faz parte do Olimpo dos maiores poetas do século. Na minha memória, será sempre a moça magrinha que explodia uma agonia que não sabia explicar, uma fúria selvagem, rústica, que servia para encobrir a poeta que não se bastou. (Luis Nassif) METAFÍSICA Peixe pescado Descobre o ar Não pra contar A obra de Orides Fontela Com seus companheiros inseparáveis "O grande bem que nos deixou é a sua poesia.
Não pretendo aqui reforçar os traços da personalidade da Orides Fontela e sua dificuldade em fazer e manter amizades. Orides Fontela deve ser vista como aquela poeta capaz de dizer muito com o mínimo de palavras. Foi um anjo torto, às avessas, sarcástico nos seus comentários, impiedoso, inteligente e selvagem. Capaz de trazer tensão ao ambiente e criticar em voz alta a leitura de outros poetas. (Donizete Galvão) Paisagem Natal a teoria azul dos montes longe.
II As montanhas arcaicas, ventre de um sol perfeito de uma infinita Lua e os ventos de agosto, a névoa elidindo montanhas sóis e tudo. III Esta estrada. Névoas Nenhum murmúrio. Nada. Passamos (e o sol fenece). Jamais haverá. Na escrita de Orides, há a defesa do despojamento, de um cansaço benéfico que restará depois de tentar tudo com a literatura. "A vida é que nos tem, nada mais temos". Oito anos depois de sua morte a Editora CosacNaif reeditou sua obra num livro chamado Poesia Reunida.
Assim, é possível interpretá-la de modo justo, reintegrar o prestígio ao texto e retirá-lo da personalidade folclórica, passional e complicada financeiramente, de uma artista que foi despejada e comprou briga com amigos famosos que a ajudaram no início da carreira. 2 de novembro de 1998 -Orides Fontela morre em Campos do Jordão. Lá foi sepultada Na lápide, trecho de um de seus poemas: Um anjo é fogo. Consome-se " Era primavera, quando fui internada num sanatório público em Campos do Jordão. Estava tuberculosa.
Tossia muito, sentia fortes dores. Sabia-me depressiva, sozinha, mais abandonada do que nunca. Aos dois de novembro de hum mil novecentos e noventa e oito vim a falecer. Não sabiam quem eu era, a quem avisar, seria enterrada como indigente, aliás, como sempre fui, como sempre me senti. Uma enfermeira, ao juntar minhas poucas coisas, viu o livro "Teia" e meu nome como autora, levou para a administração. Avisaram meu editor, Luis Fernando Emediato, que foi até lá. Fui enterrada no cemitério em Campos do Jordão.
Juro-lhes que tenho me comportado melhor do que em vida. Até agora nenhum vizinho reclamou de mim. Não briguei e nem xinguei ninguém. Damo-nos muito bem. Nossa coexistência é pacífica, como nunca me aconteceu em vida. Vivo em paz com minha idiossincrasia, com a sensibilidade de minha alma. A poesia continua a alimentar-me o espírito. Estou bem." Do Monólogo "O Tempo Pingando dos Olhos" de Maria Célia de Campos Marcondes 7 de novembro de 2007.
Nove anos após sua morte, Orides recebe a Comenda da Ordem do Mérito da Cultura O Ministério da Cultura homenageou no dia 7/11/07, a sanjoanense Orides Fontela com a Ordem do Mérito Cultural, categoria Grã-Cruz. Maria Helena Teixeira de Oliveira, prima da poetisa sanjoanense, foi quem recebeu a congratulação das mãos do Presidente da República, Luis Inácio Lula da Silva. A cerimônia aconteceu no Palácio das Artes, na cidade de Belo Horizonte.
Orides Fontela é patronesse da Cadeira nº 32 da Academia de Letras de São João da Boa Vista, cujo titular é Antonio Carlos Rodrigues Lorette.
Obra
Da vida não se espera resposta Orides Fontela O3 de setembro de 2016, Orides Fontela retorna à terra natal orides fontela (biografia) "Quem se der ao trabalho de observar aquela mulher de andar trôpego, curvada feito um ponto de interrogação, não raro num solilóquio ininteligível em que ressoam imprecações, pode pensar, ali vai outras dessas figuras bizarras que pululam no centro de São Paulo, movida a álcool, desespero, desesperança. No caso de Orides Fontela, a conclusão é verdadeira apenas em parte.
Sua esquisitice esconde um dos nomes mais respeitados da poesia brasileira contemporânea. Antônio Cândido, o papa da crítica literária, concedeu-lhe um prefácio extremamente elogioso ao livro Helianto, de 1973. Foi o prof. David Arrigucci que a descobriu em São João da Boa Vista, no interior de São Paulo. A filósofa Marilena Chauí, ex-secretária da Cultura de São Paulo, classifica-se de brilhante.
Mas, com exceção de Marilena, que diz ter uma paciência infinita ninguém que ver Orides pela frente “sou muito suscetível, briguei com todo mundo”, reconhece a poeta, que odeia ser chamada de poetisa. Em meio a tantas confusões, Orides ainda acha tempo para produzir. Ela rabisca seus versos num caderno universitário, antes de batuca-los na máquina de escrever.
Suas últimas poesias são tristes como as paredes sujas do seu apartamento, onde ainda há traços de uma grafite feito por um americano que veio para o Brasil fugido do serviço militar. Sua melancolia pode ser medida pelas seguintes estrofes de ACALANTO: Em 1967 Orides Fontela teve dois poemas publicados no Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo. Seu primeiro livro de poesia, Transposição, foi lançado em 1969; seguiram-se Helianto (1973), Alba (1983), Rosácea (1986), Trevo, 1969/1988 (1988) e Teia (1996).
Recebeu o prêmio Jabuti de Poesia, em 1983, pelo livro Alba, e o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, em 1996, pelo livro Teia. Sobre sua obra, de tendências contemporâneas, o crítico Antonio Candido afirmou: "Orides Fontela tem um dos dons essenciais da modernidade: dizer densamente muita coisa por meio de poucas, quase nenhumas palavras, organizadas numa sintaxe que parece fechar a comunicação, mas na verdade multiplica as suas possibilidades.
Denso, breve, fulgurante, o seu verso é rico e quase inesgotável, convidando o leitor a diversas vezes, a procurar novas dimensões e várias possibilidades de sentido.". "Vê-la morrer, assim, deu-me um gosto amargo de impotência e de falta de disponibilidade para estar mais perto dela. Tinha comprado umas roupas de lã, toucas, meias para levar até o hospital, como ela havia pedido, quando recebi o telefonema sobre sua morte.
No seu modestíssimo túmulo em Campos de Jordão, colocamos uma placa que é a primeira estrofe de um poema de Teia: Um anjo/é fogo:/consome-se. Na sua curta trajetória, ela conseguiu construir, como poucos do seu tempo, uma obra extremamente original e que, sem dúvida, permanecerá luminosa." (Donizete Galvão) Foto José Marcondes 4 No dia 03 de setembro de 2016, aconteceu a cerimônia oficial de inauguração do Memorial Orides Fontela, na Biblioteca da UNIFAE.
O evento foi o ponto culminante do projeto “A de Orides”, que teve início com um cortejo partindo da Academia de Letras, no Largo da Estação. Depois de passar por alguns pontos marcantes da vida de Orides, como a casa onde nasceu (Rua Oscar Janson, 18), o Teatro Municipal, as Escolas Estaduais Cel. Joaquim José e Cel. Cristiano Osório, a urna com as cinzas da poeta chegou à UNIFAE, onde foi recebida e conduzida por atiradores do Tiro de Guerra até o Memorial.
O projeto foi uma iniciativa da UNIFAE, em parceria com a Academia de Letras e a Prefeitura de São João da Boa Vista, para homenagear esta poeta que inscreveu seu nome entre os grandes da literatura, e que agora retornou à sua terra natal. Quando pousa o pássaro quando acorda o espelho quando amadurece a hora.
Leio minha mão: livro único 1940 Nasceu no dia 24 de abril em São João da Boa Vista 1946 É alfabetizada pela mãe 1948 Estuda no Grupo Escolar Joaquim José 1951 Entra para o Ginásio São João 1955 Escola Normal Cristiano Osório de Oliveira 1956 Publica seus poemas no jornal O Município 1966 Muda-se para São Paulo 1967 Publicação de dois poemas no Suplemento Literário de O Estado de S.
Paulo 1968 Curso de Filosofia na USP 1969 Transposição – Instituto de Cultura Hispânica da USP 1973 Helianto – Duas Cidades 1983 ALBA –Roswitha Kempf Editores 1983 Prêmio Jabuti de Poesia, pelo livro Alba 1986 ROSÁCEA - Roswitha Kempf Editores 1988 TREVO – (Claro Enigma) Duas Cidades 1996 TEIA – Geração Editorial, 1996 1996 Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, pelo livro Teia 1998 TRÈFLE (Trevo) - Tradução Emmanuel Jaffelin e Márcio de Lima Dantas - Paris: L'Harmattan 1998 É internada em 24 de outubro em São Paulo 1998 Morre em 2 de novembro em Campos do Jordão 2000 ROSACE (Rosácea) - Tradução Emmanuel Jaffelin e Márcio de Lima Dantas - Paris: L'Harmattan 2006 Poesia Reunida - 1969-1996 - pela CosacNaif 2016 Suas cinzas retornam à São João da Boa Vista, sua terra natal Ver o avesso do sol o ventre do caos os ossos.
TRANSPOSIÇÃO – Instituto de Cultura Hispânica da USP, 1969 HELIANTO – Duas Cidades, 1973 ALBA –Roswitha Kempf Editores, 1983 ROSÁCEA - Roswitha Kempf Editores, 1986 TREVO – (Claro Enigma) Duas Cidades, 1988 TEIA –Geração Editorial, 1996 Poesia Reunida –CosacNaif, 2006 Obras publicadas no exterior Francês TRÈFLE (Trevo) - Tradução Emmanuel Jaffelin e Márcio de Lima Dantas - Paris: L'Harmattan, 1998. ROSACE (Rosácea) - Tradução Emmanuel Jaffelin e Márcio de Lima Dantas - Paris: L'Harmattan, 2000.
São Paulo SP - Prêmio Jabuti de Poesia, pelo livro Alba, concedido pela Câmara Brasileira do Livro 1996 - São Paulo SP - Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, pelo livro Teia 2007 - Belo Horizonte MG - Comenda Ordem do Mérito Cultural, categoria Grã-Cruz Comentários da Autora sobre Sua Obra “ Transposição: devo me deter mais, deixar de piadas. Já atingi o real literário: o que foi publicado, existe. Eu goste ou não. E eu gosto!
Este livro com sabor ingênuo e bem sanjoanense, com uma integridade e forças próprias, é filho do Sol de São João! Não procurem “filosofia” nele, nem orientalismo, é só o que é, a quase inefável intuição de estar "a um passo de". De quê? Sei lá, estou há anos luz. O sol virou a Estrela Próxima. É um livro claro e ingênuo, no fundo, em que pese sua linguagem excessivamente abstrata. Parece "teórico", mas é integralmente vivido.
E foi Transposição que publiquei em 69, via Instituto de Espanhol da USP, onde Davi Arrigucci trabalhava.” “ Helianto, é uma produção sofisticada de uma aluna de Filosofia da USP – pois uma “professorinha” não tem status e nem apareceria – quero deixar claro que, em todos os meus livros, o nada jamais me interessou, e como poderia interessar a quem quer que seja? O problema sempre foi o ser, a forma, a palavra. O silêncio só entra devido ao impasse inevitável. Helianto: Hélios e anto, Sol e flor, terra e sangue, totalidade, círculo.
Esta é a ideia mestra de Helianto, que por isto tem como epígrafe uma cantiga de roda. Reconheço que este é meu livro mais “bizantino”. No bom e no mau sentido. Esbaldei-me, usei e abusei de toda a tecnologia aprendida. Sim, li os concretos, mas. era tarde. A espinha dorsal já estava pronta e ereta, e outras influências só poderiam me atingir de raspão. Li Mallarmé, Baudelaire, Góngora. E bem pouco penetrou, o que eu já era, já era.
É por isso que não sou nem nunca pude ser uma renovadora e, no máximo, adquiri maestria e forma própria de lidar com aquilo que recebi de meu meio social. Helianto comprova bem tanto a maestria quanto a limitação, mas creio que, na época, sua preocupação com a meta-poesia (a forma, a palavra) não estava tão defasada assim. Mas, apesar do patrocínio de Antonio Candido, o livro foi totalmente ignorado. Azar. Agora mudo de novo, de poeta lida só na USP para poeta conhecida pelo menos em alguns outros estados.
Isto levou tempo a valer. ” “ Alba: eu havia conhecido o professor Antonio Candido lá para 70 ou 71, após Transposição, de que ele gostou. Ele leu Helianto e arranjou a publicação, leu também Alba, que acabou prefaciando. Tudo fácil? Que nada! Difícil mesmo era quem, naquele tempo, publicasse poesia. Mas, em 83, a Roswitha Kempf assumiu e o livro emplacou, foi premiado e vendeu. Feliz? Pois sim.
Pra mim, era um fim de linha, o ápice da espiral poética iniciada creio que com Rosácea I, algo de perfeito e, por isso mesmo, ultrapassado e morto. Podiam louvar ou execrar, mas meu problema era – como mudar? Neste momento eu consegui mesmo um livro, algo bastante íntegro, e, por tudo isso. terminal. Voltei a “um passo de”. mas não saí de lá. Única novidade que assinalo em Alba é o início da influência do Zen. Só um “cheiro”, algo sutil, perceptível em certos poemas. Não vou dizer quais. Leiam, pô!
“ “ Rosácea: o sucesso de Alba talvez tenha prejudicado um pouco a estrutura de Rosácea, pois organizei o livro depressa demais, e o material era bem heterogêneo. Coisas novas, fundo de gaveta e restos de memória. Juntei tudo. Aproveitei o título do livro abortado e a estrutura quíntupla – devo ao Davi a ideia de como organizar o livro – mas, mesmo assim, é meio dissonante.
Justifiquei-me usando como epígrafe um koan de Heráclito, isto é, se o universo é bagunça organizada, um “caosmos”, meu livro também poderia ser a mesma coisa, tranquilamente. E foi em Rosácea que tentei renovar-me, abandonar o sublime (de que, como boa proletária, desconfio paca), assumir o pessoal e o concreto, isto é, condensar as abstrações apresentá-las como imagens, se possível exemplares – algo como Brecht. Em parte consegui, em parte não. Enfim, estou a caminho, uma nova virada, a mais problemática de todas.
Agora quero assinalar que Rosácea inclui um livro Zen – isto é, Zen a meu modo – e sonetos (o “Bucólicas”) que não estavam nem em Rosácea I, pura arqueologia. E poemas que ficaram só na memória. Existem ainda os poemas perdidos de Rosácea I? Vale a pena? Creio que não. Resgatei o que sobreviveu e pronto. “ Trevo: um trevo de quatro folhas. Para dar sorte. E eis tudo até agora. Mas nossa época é terrível, somos “poetas em tempo de desgraça”, como diz Heidegger.
Nossa cultura está numa crise que atinge suas próprias bases – e a isto chamamos pós-modernismo – pois nem nome próprio tem o que morreu e/ou ainda vai nascer. Onde estou? Onde se localiza minha obra de mais de vinte anos no quadro da poesia brasileira? Não sei. Que os amigos, os críticos, os outros poetas me ajudem a responder a esta questão. Eu deixo aqui este depoimento pessoal de uma autora senão excepcional, razoável e consciente.
Em Rosácea I eu tinha posto uma epígrafe do Eclesiastes: “aquilo que acontece é/longínquo/profundo, profundo:/quem o poderá sondar?”. Poderemos? Bem a erva humilde e até vulgar da poesia não foi arrancada por ninguém, foi bem cultivada e deu no que deu: este Trevo. E sendo tudo por agora, prefiro recorrer de novo ao Eclesiastes: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”. Ou se quiserem, tudo é poesia, né?”“ Teia: dizem que é um livro mais fácil que os anteriores. Mas essa foi a minha intenção, eu quis me afastar do barroquismo.
Reclamam, porque eu não falo de amor. Mas então não leram Homero. Eu quis chegar no miolo das coisas. Já fiz duas leituras para auditório de jovens e eles gostaram muito. Isso me deixa reconfortada. Mas, infelizmente, nossos especialistas ainda têm uma visão muito olímpica da poesia. Entes de Teia, eu cheguei a ser classificada como "poeta metafísica". Agora, espero, fica mais difícil me enquadrar. Mas é a velha história: é melhor que falem mal, mas falem de mim. Eu preciso de dinheiro para viver.
Memória
Minha vida é um retrato da vida dos aposentados do Brasil. E a vida dos poetas no País. Eu queria ser mais enxuta, queria escrever poemas exemplares à moda de Brecht. Sei que não agrada, porque a moda é o barroquismo. A moda é escrever como o Alexei Bueno. A moda é ser difícil. É um fenômeno sociológico e não adianta discutir com os fatos da sociologia. Não quero ir contra ninguém, só quero escrever meus poemas. Essa guerrilha de poetas é divertidíssima, mas desejo participar dela.
Eu sou pequena, pobre mulher que escreve uma poesia boa, mas, coitada, não é do meio. Não tenho família, não tenho bens, não frequento os lugares chiques. É como se eu estivesse invadindo o Olimpio.” Publicado originalmente: in Artes e ofícios da poesia. Augusto Massi (org). Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1991. pp. 256-261 Bibliografia sobre a Autora Dantas, Vinicius. A Nova Poesia Brasileira e a Poesia. Novos Estudos Cebrap, São Paulo, n.16, p.40-53, dez. 1986. FONTELA, Orides. Orides Fontela. In: ARTES e ofício da poesia. Org.
Augusto Massi. Apres. Leda Tenório da Motta. Porto Alegre: Artes e Ofícios; São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura, 1991. p.255-261. ___. Sexo e Destino. Entrevista do mês, conduzida por Augusto Massi, José Maria Cançado e Flávio Quintiliano. Leia, São Paulo, ano 11, n.123, p.23-25, jan. 1989. MASSI, Augusto. Uma Obra Feita em Espiral. Folha de S. Paulo, São Paulo, 9 ago. 1986. p.61. BUCIOLI, Cleri Aparecida Biotto. Entretecer e Tramar Uma Teia Poética. FAPESP, Annablume. São Paulo, 2003. SOUZA. Fatima Maria da Rocha.
Armadilhas do Tempo. Universidade Federal do Ceará, 2004.
Do Monólogo “O Tempo Pingando dos Olhos” de Maria Célia de Campos Marcondes. (Baseado em fatos reais) “Fui aluna do Instituto de Educação Cel. Cristiano Osório de Oliveira em São João da Boa Vista, minha cidade natal. Aliás, uma excelente aluna, com excelentes notas. Mas, mesmo assim vivia isolada ninguém queria ser minha amiga. Um dia, minha mãe morreu. O caixão na sala de visitas, meu pai, eu e algumas poucas e raras vizinhas. O corpo, parcas flores, as velas, a cruz. De repente, começaram a chegar os professores.
Meus professores do Instituto! Impossível, meu Deus! Minhas colegas de classe! A orientadora escolar! Não era possível! Que felicidade senti! Eu existia, elas gostavam de mim, vieram ver-me! Tinha vontade de dançar, de abraçá-las. Era o delírio! O velório passou a ter-me outro significado. Era a aceitação de minha pessoa, era tudo o que eu queria! Eu existia, passei a ter visibilidade. Tudo ficou melhor! Muito melhor! Parecia um sonho, uma festa! Tudo era irreal! Minha mãe morta, tanta gente em minha casa! Pela primeira e. única vez!!
Decepção! Meu sonho durou apenas os momentos em que estiveram ali. ‘Ele se desfez como a água na água. Minha nostalgia, minha solidão armaram-me uma cena impossível’ Quando retornei à escola tudo era igual. Exatamente como sempre fora! Ignoravam-me.” Falo de agrestes Pássaros de sóis que não se apagam de inamovíveis pedras de sangue vivo de estrelas que não cessam. “Sempre fui uma amante dos livros e dessa maneira era grande frequentadora da biblioteca do Dr Oliveira Neto.
Ele e seus livros reforçaram os alicerces da minha formação literária. Estava sempre também na biblioteca da escola. A bibliotecária era Dª Maria Leonor. Até como leitora tive minhas desditas, Dª Maria Leonor chamou-me à biblioteca e disse-me que não mais iria me emprestar livros, porque eu recortava, com gilete, todas as palavras “homens”. Neguei! Disse-lhe: que diferença fazia a palavra “homem”, “mulher”, ou qualquer outra. Era tudo igual. Ora bolas eram apenas palavras!
No entanto, Dª Zezé Lopes chamou-me em sua sala e eu não consegui mentir-lhe. Confessei tudo! Era eu quem recortava a palavra “homem” dos livros. Por quê? Não sei! Não sei! Ela me prometeu não contar a ninguém. Assim o fez e eu continuei a cortar a palavra “homem” dos livros que lia.” Estranho impulso levava-me a isto. Eu não conseguia controlar-me, por mais que tentasse.” À beira do rio o silêncio dos peixes. a beira do rio nem a espera.
A água não cessa e o rio nunca passa. À beira do rio a lucidez a pedra e a pedra é pedra: não germina. Basta-se. ”Mas, nas minhas subjetivas e concretas desditas eu tive o amor de meu pai. Como conversei com ele! Era meu amigo! Meu único e fiel amigo! Andávamos sempre juntos pela cidade, às vezes de braços dados, outras vezes, eu mais à frente. Nestas ocasiões, olhava para trás para que pudéssemos conversar. Quanto tropeção e alguns tombos levei, devido a esse costume.
Ele carregava sempre um guarda-chuva dependurado no braço, dizia que era para proteger-me. Proteger-me, fez isso a sua vida inteira! Do que efetivamente pretendia proteger-me, nunca soube. Mas sabia o quanto nos amávamos! Um amor sem restrições, absoluto na sua forma mais abstrata. Um amor que só alguns poucos têm o privilégio de conhecer. No entanto, achavam esquisito nosso relacionamento. Olhavam-nos de soslaio, e através de nossos olhos míopes e das grossas lentes de nossos óculos, percebíamos estranhos e enigmáticos olhares.
Gostávamos muito de cinema e não perdíamos um só filme. Sentávamos sempre isolados porque ninguém gostava de ficar perto de nós. Mas eu sei o motivo! Nós tínhamos sensações, não éramos frios como os outros que se escondiam atrás de seus próprios sentimentos, abafando-os, sufocando-os. Eu e meu pai, não! Vivíamos, vibrávamos com a história que desenrolava na tela. Manifestávamos alto nossas emoções. Chorávamos, ríamos, dávamos recados aos atores, gritávamos para que eles tomassem cuidado, avisávamos dos perigos que corriam e.
“ A um passo do pássaro respiro. “Certa ocasião uma professora declamava “O Navio Negreiro” de Castro Alves. Parece-me ainda, ouvi-la. “Mas que vejo eu aí.que quadro d’amarguras. Que fúnebre cantar! Que tétricas figuras! Que cena infame e vil. Meu Deus! Meu Deus! Que horror! O tombadilho em sangue a se banhar. Legiões de homens negros como a noite, Horrendos a dançar. Era um sonho dantesco, tanto horror perante os céus.” Não aguentei.
Fiquei em pé e alucinada, com as mãos na cabeça disse alto: “Que horror, que sofrimento, meu Deus!” Vivia tão intensamente o poema que sofria com o sofrer dos escravos, chorava suas lágrimas, doíam-me suas dores. Porém, ninguém entendia isso. E. todos riram. Eu, que já estava em prantos pela cena descrita, agora chorava porque pessoas insensíveis riam-se de mim.” Ao meio dia a vida É impossível A luz destrói os segredos A luz é crua contra os olhos Ácida para o espírito.
A luz é demais para os homens (porém como o saberias se não viesses a luz de ti mesmo?) Meio dia! Meio dia! A vida é lúcida e impossível! “O Tempo Pingando dos Olhos– é trecho do poema Contaminação—livro Teia de Orides Fontela.”
FALA Falo de agrestes Pássaros De sóis Que não se apagam De inamovíveis Pedras De sangue Vivo De estrelas Que não cessa, Falo do que impede o sono. “Minha profissão de fé, é pelo saber, pelo conhecimento. Essa é a doutrina budista: o único mal é a ignorância, o único pecado é a ignorância”. “Para ser simples, é preciso ser poeta”. “A minha família não tinha base cultural, meu pai era operário analfabeto, de modo que a cultura que peguei foi na base do ginásio, escola normal e leitura”.
“Eu costumava mostrar meus poemas a alguns críticos paulistas, mas eles acham que eu facilitei, que me tornei popularesca e não se interessam mais em ler o que eu escrevo. Descobri o quanto estou sozinha na noite do lançamento de Teia, em um bar da Alameda Franca. Não havia um só crítico, um só poeta”. “Todo mundo bebe um pouquinho, né”? "Eu estou mal por causa do problema social, da proletarização total. Eu poderia trabalhar até como faxineira.
O problema é que sou péssima dona de casa, só sei mesmo escrever poesia e disso não se vive no Brasil". Inspiração: “Posso afirmar que grande parte dos meus poemas nasceram como são. Não é que eu tente acreditar nisso, inspiração, no meu caso é um fato”. “A vida às vezes é satisfatória, às vezes, uma porcaria. Tudo na vida é muito maluco, impulsivo aberto. E ninguém sabe imaginar outra coisa além da vida”. “Eu não sei o que me dava, achava que as pessoas me olhavam com desprezo, me diminuíam porque eu não tinha nada.
Aí, eu ficava nervosa e começava a agredir”. “João Cabral de Mello Netto: “O que sei é que não copiei”. “Fui professora de pré-primário. Trabalho na biblioteca do Grupo Escolar Marisa de Melo. Não sei fazer outra coisa que não seja escrever. E isso não dá dinheiro. Possuo dois gatos, quatro livros e o saldo do Brás Cubas. Logo, estou encrencada”. “Não tive opção, mulher pobre, ou vira feminista, ou passa a vida apanhando do marido, para mim sempre foi difícil namorar um homem do meu nível social.
Eu era pobre demais para tentar algo com um cara melhorzinho”. “Os poemas pintam quando eles querem. Acho que ficam no inconsciente. Quando eles estão vivos, eles acabam voltando”. “Poesia estrangeira: “Góngora, San Juan de la Cruz, Mallarmé.” “Eu estou procurando tornar os poemas mais diretos, mais acessíveis para todas as pessoas”. “Com Teia eu quis chegar no miolo das coisas. Já fiz duas leituras para auditório de jovens e eles gostaram muito. Isso me deixa reconfortada.
Mas, infelizmente, nossos especialistas ainda têm uma visão muito olímpica da poesia”. “Gostaria de ver meus quatro livros reunidos. Já tenho até título: ‘Trevo’. “É a velha história: é melhor que falem mal, mas falem de mim. Eu preciso de dinheiro para viver. Minha vida é um retrato da vida dos aposentados do Brasil. E a vida dos poetas no País”. “Sonetos: “ não faria mais. Sou preguiçosa. E os sonetos me parecem epopeias”. “A moda é escrever como o Alexei Bueno. A moda é ser difícil.
É um fenômeno sociológico e não adianta discutir com os fatos da sociologia”. “O fato de ser muito solitária me favoreceu em termos de voz pessoal”. “O meu sonho mais infantil é ser traduzida. O que é uma bobagem completa. Mas ser internacional deve ser muito gostoso”. “Eu sou anti-romântica e não gosto de ser encarada como uma poeta que sofre. Não fui chamada de estóica e isso eu aceito”. “Geneticamente sou drummondiana. Gosto do Drummond tiro e queda, aquele dos pequenos poemas em que não sobra nada: destrutivos e impressionantes”.
“Eu começo meus livros com um poema-tema, que depois dá nome ao volume, e acabo sempre com um poema sobre o silêncio”. “Poemetos: “Parte de poemas que não deram certo. Utilizo apenas a melhor imagem. Mas alguns deles nasceram realmente micropoemas. É uma tendência moderna”. “Meus poemas não têm nenhuma relação com meu cotidiano”. “Hermetismo não é qualidade”. Bizâncio: “A ideia mítica de uma cidade dourada é bonita. Faz parte da minha mitologia particular. Toda poesia é dotada deste fundo mitológico que o poeta cria”.
“Gosto dos poemas – piada. O livro Anatomias, me agrada muito. Mas é preciso ter cuidado senão não se vai longe”. Murilo Mendes: “Convergência eu virei de cabeça pra baixo”. “A vida é tão maluca, tão imprevisível. Quem sabe ainda não vou encontrar um grande amor”?
Cronologia
Nasce em São João da Boa Vista, em 24 de abril.
Publica poemas em jornais locais, no início de uma voz poética já muito particular.
Publica Transposição, livro de estreia que a projeta na poesia brasileira.
Recebe o Prêmio Jabuti por Alba, reforçando sua presença na poesia brasileira.
Morre em Campos do Jordão, deixando obra breve e decisiva.
A poesia de Orides continua a ganhar leitores, novas edições e fortuna crítica.
Obras e vestígios
A bibliografia de Orides funciona como mapa de linguagem: da estreia em Transposição à reunião posterior da obra, o percurso mostra depuração, rigor e permanência crítica.
TransposiçãoLivro de estreia, publicado em 1969, já marcado por abstração, economia verbal e busca de precisão.
HeliantoPublicado em 1973, amplia o trabalho formal de Orides e consolida sua leitura crítica.
RosáceaLivro de 1986 em que a poesia avança em depuração, símbolo e construção rítmica.
TeiaPublicado em 1996, confirma a maturidade extrema de sua linguagem e a permanência de sua voz.
Fontes e pesquisa
Poemas, bibliografia, capas e notas críticas que ajudam a deslocar a leitura para a obra, não só para o anedotário biográfico.